Valorização da commodity e falta de repasse pressionam moinhos do País

10/09/2019



A valorização da matéria-prima, novos hábitos de consumo e economia fraca do País estão pressionando as margens da indústria de moagem de trigo. Fabricantes do setor não estão conseguindo fazer o repasse de preços para o mercado consumidor. “No último ano, a farinha de trigo subiu 17%, enquanto o balanço das empresas do setor mostra aumento de 10% no preço médio dos produtos. Há um descompasso no repasse”, declarou o presidente do conselho da Abitrigo, João Carlos Veríssimo, em coletiva de imprensa na terça-feira (3).A estimativa é de que a margem bruta dos moinhos tenha caído de três a quatro pontos nos últimos três anos e o cenário deve se repetir em 2019.

Ele destacou que o atacarejo tem exercido influência nesse cenário. “O cash and carry traz mais pressão para a negociação. O descompasso no repasse ocorre muito em função dessa mudança no perfil de distribuição. Há um embate na ponta da cadeia e a indústria fica pressionada no meio do elo.”O cenário ainda é potencializado pela falta de crescimento econômico e consumo desaquecido. “Em termos de volume, o consumo não é afetado. Mas com maior poder aquisitivo, a população compra produtos com maior valor agregado”, explica o superintendente geral da Abitrigo, Eduardo Assêncio. Em função da limitação causada pela matéria-prima — a farinha de trigo corresponde a 70% do preço de venda dos produtos — essa variável impacta na rentabilidade das empresas.

Veríssimo também destaca o peso do tabelamento do frete na equação. “Hoje é o segundo maior custo dentro dos moinhos. É um impacto muito grande. O tabelamento não vai resolver o problema de excesso de oferta de transporte, só prejudica os caminhoneiros autônomos. As grandes companhias estão adquirindo frota própria em reação.”

O presidente executivo da Abitrigo, Rubens Barbosa, declarou que a entidade está acompanhando as negociações sobre o tema. “Há uma preocupação com o adiamento do julgamento da matéria no Supremo Tribunal Federal e não sabemos quais serão os próximos passos.”Abertura comercialVeríssimo destaca que o setor tem que se preparar para o movimento de abertura comercial por qual passa o Brasil. “A indústria tem que ter investimento para competir com o que vem de fora. Essa abertura também trará oportunidades para exportação. Nosso mercado é muito local.”Barbosa avalia que o chamado custo Brasil é o grande vilão na defesa de mercado. “Isso está sendo parcialmente atacado com as reformas e medidas de liberalização e desburocratização. Temos que fazer nosso dever de casa.”

A Abitrigo estima que o País importa mais de 50% do trigo consumido internamente. “A produção não atende a demanda e a maior parte vem da Argentina. Tanto a valorização do dólar quanto a situação econômica do país vizinho influencia na comercialização da commodity”, diz Barbosa.Veríssimo conta que, em um primeiro momento, o impacto cambial fez com que os produtores argentinos segurassem as vendas. “Eles tomaram essa atitude para aproveitar a valorização do produto, que chegou a 30%. Mas o mercado já voltou a ter liquidez e não há problemas de abastecimento.”

A entidade espera que, com a quota de 750 mil toneladas de importação sem incidência de alíquota para países de fora do Mercosul, a dependência da Argentina diminua. “O governo já decidiu aceitar esse compromisso. Agora é necessário definir a regulamentação de como será feita essa importação. A expectativa é que isso seja definido em 2020”, assinala Barbosa.Um possível novo parceiro seria a Rússia, que se tornou o maior exportador global de trigo. Porém, as importações ainda esbarram na legislação. “A carga precisa passar por análises sanitárias antes de entrar no País e esses testes levam por volta de dez dias. Um navio parado no porto custa US$ 20 mil por dia, o que torna o negócio inviável para moinhos que não estão na área do porto”, explica Veríssimo.

Outro entrave é frete de cargas russas, que é mais caro do que o do trigo vindo dos EUA.


Fonte: DCI