Variáveis do mercado internacional devem reduzir plantio de trigo no RS

Setor
07/03/2024

Na reta final da safra de verão, as variáveis que determinarão a implantação das culturas de inverno começam a ser ponderadas. Na Expodireto Cotrijal, realizada em Não-Me-Toque, o 15º Fórum do Trigo analisou o cenário gaúcho e a conjuntura de mercado e oferta do cereal. “O sentimento inicial é de pessimismo e de redução de área a ser plantada. Temos produtores descapitalizados e desmotivados, com incerteza de preços”, disse o analista Elcio Bento, da Safras & Mercado, que entrou na programação do fórum em lugar do presidente da Federação Argentina da Indústria de Moagem. O presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Rogério Tondo, também foi escalado para falar no evento.

A triticultura gaúcha vem de quebra forte na última safra. A estimativa inicial de colher 5,4 milhões de toneladas foi frustrada pelos efeitos do El Niño, com chuvas e umidade excessiva, reduzindo a safra para 3,2 milhões de toneladas, com 80% dos grãos de baixa qualidade sendo destinados para a produção de ração. Considerando que o consumo dos moinhos gaúchos fica ao redor de 1,9 milhão de toneladas, consolidou-se maior dependência da importação, especialmente da Argentina.

Bento abordou os reflexos do que está sendo feito na Argentina após Javier Milei assumir o comando do país e o impacto da produção argentina no mercado brasileiro. Conforme o analista, a Argentina vive situação similar à época em que Mauricio Macri assumiu o poder, em 2015, com a promessa de isentar retenciones (impostos de exportação). “Naquele ano das eleições, os exportadores não venderam trigo, porque tinha retenciones de 23% e havia a promessa de que seriam zeradas”, afirmou. O país tinha estoque de 8 milhões de toneladas e exportou menos de 4 milhões de toneladas. “Este ano aconteceu algo parecido, mas a Argentina teve safra pequena, por efeitos climáticos”, afirmou.

A safra argentina de 2021-2022 foi de 22 milhões de toneladas, caindo para 11 milhões de toneladas no ciclo seguinte. Ante a quebra de 10 milhões de toneladas, o país poderia ter exportado até 5 milhões de toneladas, mas vendeu somente 3 milhões de toneladas. “Este ano, a situação climática era complicada, mas a produção subiu para 14,8 milhões de toneladas. Considerando que consome 6 milhões de toneladas, a Argentina tem saldo exportável de 10 milhões de toneladas, e o Brasil vai ser um grande comprador”, analisou.

Conforme Bento, a dificuldade para o produtor brasileiro é que o trigo argentino está muito barato, a partir da dinâmica mercadológica internacional. “A Rússia está enchendo o mercado de trigo, tem grande saldo para exportar, e há um efeito dominó, derrubando preços no mundo todo, inclusive na Argentina. Tem trigo argentino barato, câmbio abaixo de R$ 5, e isso achata os preços no Brasil”, destacou. O analista disse que o cenário aponta para desestímulo ao plantio no Brasil. “É difícil estimar um percentual de queda, mas é meio que consenso no mercado que vai ser menor”, disse. Apesar do pessimismo, o analista sinaliza para dois fatores positivos que podem ser vantajosos para o triticultor: o custo de produção em queda e a condição climática mais favorável pela possível ocorrência de La Niña. “Sem contar ainda que, ao final deste ano, começam a operar as indústrias de etanol de trigo no RS”, finalizou.

Fonte: Correio do Povo

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