*Rubens Barbosa – presidente-executivo da Abitrigo
Os ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã são mais um exemplo dos rumos de um novo mundo, sem instituições, leis ou regras estáveis e previsíveis.
Os objetivos declarados pelos EUA e por Israel, no início da guerra, eram aniquilar a capacidade nuclear e de lançamento de mísseis, eliminar a força militar e naval, bem como a infraestrutura de construção militar e de eletricidade do Irã e, sobretudo, promover a mudança do regime teocrático. Esses objetivos foram, em grande parte, alcançados, o que não impediu que o governo de Teerã continuasse a funcionar, apesar da morte de grande parte de seus líderes religiosos, militares e de inteligência.
Os ataques a alvos norte-americanos, como bases militares e alvos civis e militares em países do Golfo aliados dos EUA, continuaram, com o lançamento de mísseis e danos crescentes, além da ameaça de intervenção militar, como sinalizado pela Arábia Saudita. A guerra, assim, segue em escalada, com ataques de Israel ao Líbano em resposta às ações do Hezbollah.
As consequências dessa escalada impactaram fortemente o mercado de gás e petróleo. A destruição de depósitos de gás no Irã e de petróleo nos países do Golfo e, sobretudo, o fechamento do estreito de Hormuz elevaram em mais de 50% o preço das matrizes energéticas, com repercussões também nos custos de seguros e fretes.
É difícil prever os desdobramentos do conflito, diante da ampliação para outros países e da incerteza quanto à reação política interna nos EUA, onde crescem as críticas à guerra, inclusive com a demissão de um alto funcionário do governo em Washington. Do ponto de vista de Israel e do Irã, não há intenção de suspender as hostilidades, por razões estratégicas evidentes.
As declarações de Washington são contraditórias. Ao mesmo tempo, os ataques à infraestrutura energética no Irã e os preparativos para uma eventual invasão militar do território iraniano, se concretizados, podem prolongar ainda mais o conflito, com consequências imprevisíveis. A reação do Irã, ao ameaçar atingir a infraestrutura energética dos países do Golfo, amplia ainda mais as incertezas.
Em termos geopolíticos, a guerra tende a enfraquecer o Irã nos campos político, econômico e militar. Israel passa a se consolidar como potência dominante no Oriente Médio, com o apoio contínuo dos EUA. Rússia e China devem manter a postura de não interferência direta na região, sendo, de certa forma, beneficiadas pelo conflito. Já os países do Golfo saem afetados, com perda de imagem de estabilidade e segurança para atração de investimentos. As fissuras entre os EUA e a Europa tendem a se aprofundar, diante de acusações de Washington, como a de que a OTAN seria um “tigre de papel” e seus membros, “covardes”, pela ausência de apoio à guerra.
Do ponto de vista do Brasil, a exemplo de muitos outros países, os efeitos já são significativos. Se, por um lado, a alta do preço do petróleo pode gerar importantes receitas com exportações, por outro, o aumento dos preços dos derivados importados tende a ter forte impacto interno, especialmente sobre o agro. O principal efeito será indireto, incidindo sobre exportações e importações de produtos agrícolas, em função do aumento dos custos de frete, seguros e fertilizantes (dos quais 97% são importados).
No caso do trigo, embora não haja risco imediato de desabastecimento, os custos indiretos, como o encarecimento do transporte do produto importado, do frete, do seguro e do combustível, devem impor um ônus adicional aos moinhos. Esse cenário se torna ainda mais desafiador para a indústria de moagem diante da imposição de novas medidas tributárias (PIS e COFINS).
Caso a guerra se prolongue além do que vem sendo indicado por Trump, em meio a declarações contraditórias, os impactos podem se intensificar. No cenário mais negativo, com a eventual invasão militar, as consequências para o agro brasileiro podem ser ainda mais severas, podendo inclusive gerar desabastecimento em determinadas regiões.
*Rubens Barbosa é presidente-executivo da Abitrigo – Associação Brasileira da Indústria do Trigo, desde 2016. Diplomata de carreira, consultor de empresas e mestre em Política Internacional pela London School of Economics and Political Science, tendo ocupado diversos cargos no Governo brasileiro e no Ministério das Relações Exteriores. Foi Embaixador do Brasil em Londres, de janeiro de 1994 a junho de 1999, e em Washington, D.C., de junho de 1999 a março de 2004. Quando em Londres, ocupou por cinco anos o cargo de Presidente da Associação dos Países Produtores de Café (APPC). Atualmente é Diretor Presidente do Instituto Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE), consultor de negócios e ocupa, entre outros, os cargos de Presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, Presidente do Conselho Deliberativo da SOBEET (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica), além de integrar diversos outros Conselhos, como da empresa CSU CardSystem S.A e da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).