O projeto de “Expansão da área de trigo na região tropical do Brasil Central” está em execução na Embrapa há mais de dois anos. Os avanços estão contabilizados na série de ações de pesquisa e transferência de tecnologias realizadas nas regiões Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.
O plano de trabalho da Embrapa para suporte à expansão da produção de trigo na região tropical do Brasil Central foi aprovado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), com recursos na ordem de R$ 2,9 milhões viabilizados através de um Termo de Execução Descentralizada, chamado “TED do Trigo Tropical”. O plano, previsto para ser desenvolvido ao longo de 36 meses, foi construído ouvindo as demandas do setor produtivo e da indústria, além de instituições parceiras e lideranças que atuam na região.
De acordo com Alaerto Marcolan, pesquisador da Embrapa Trigo coordenador do projeto, as atividades se iniciaram no final de 2022, após a liberação dos recursos. Os resultados do projeto estão detalhados no relatório apresentado ao MAPA, destacando as ações voltadas à organização da produção de sementes, transferência de conhecimentos em genética e manejo, apoio à governança da cadeia produtiva, comunicação e divulgação, zoneamento agrícola e controle da brusone.
O trabalho conta com a participação de profissionais de seis unidades da Embrapa (Trigo, Soja, Territorial, Solos, Agropecuária Oeste e Cerrados), além da Sede da empresa. Nos estados, a execução das atividades conta com parcerias na pesquisa, no setor produtivo e na indústria, com apoio de lideranças políticas e organizações públicas e privadas.
Cenário
A agricultura tropical no mundo é desenvolvida na faixa compreendida entre a Linha do Equador e os trópicos de Câncer e de Capricórnio. Olhando o mapa abaixo, é possível avaliar a vantagem ambiental comparativa do Brasil na produção de trigo em relação aos demais países na faixa tropical.
No Brasil, a área apta ao cultivo do trigo tropical abrange seis estados (SP, GO, MG, MT, MS, BA) mais o DF, nos biomas Cerrado e Mata Atlântica. Nesta região, a meta inicial da Embrapa era estimular o crescimento de 40% da área cultivada com trigo, passando de 258 mil hectares (ha) em 2021 para 360 mil ha até 2025. Ao final da safra de 2023, a área de trigo no Brasil Central chegou a 430,8 mil ha.
A identificação dos munícipios com ambiente apto à produção de trigo tropical foi atualizado pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático, o ZARC, com a indicação de períodos favoráveis de semeadura em três níveis de risco (20%, 30% e 40%) e para seis níveis de disponibilidade de água nos solos.
O trabalho de zoneamento também permitiu prospectar as áreas com potencial para a expansão de cultivo de trigo em ambiente tropical. O maior potencial está nas altitudes maiores, onde as temperaturas são mais amenas. Considerando somente as áreas entre 600 e 800 m de altitude, estariam aptos para cultivo de trigo mais de 7 milhões de hectares no Brasil Central.
“As limitações são mais mercadológicas do que ambientais, uma vez que outras culturas oferecem melhor remuneração ou acesso a mercados do que o trigo, que ainda encontra limitações, como a proximidade com moinhos ou disponibilidade de insumos de produção e maquinário, por exemplo”, explica o agrometeorologista Gilberto Cunha, da Embrapa Trigo.
Uma das limitações apontadas pelo setor produtivo na região era a falta de sementes, com baixa oferta em volume e qualidade. O cenário era de grande volume de sementes salvas, muitas vezes ocasionando problemas de germinação, uniformidade e produtividade das lavouras, além de promover a disseminação de doenças. Nas safras 2023 e 2024, a Embrapa multiplicou mais de 82 toneladas de sementes de genética BRS.
“Esse volume representa apenas as cultivares da Embrapa, mas junto com o esforço dos outros obtentores de trigo que atuam na região certamente o volume total foi muito maior, com oferta de sementes de qualidade ao produtor de grãos”, avalia o analista Bruno Lemos, da Embrapa Trigo, que atua na transferência de tecnologias para trigo tropical.
Associada à disponibilidade de sementes, a falta de conhecimentos sobre o cultivo do trigo também desafia o produtor no ambiente tropical. Para levar informações sobre genética e manejo da cultura a produtores e profissionais da assistência técnica foram desenvolvidas diversas ações de transferência de tecnologia, através da validação, capacitação e divulgação. Em números, a Embrapa e os parceiros apresentaram o trigo tropical em 120 visitas técnicas, 16 dias de campo, 111 unidades demonstrativas, 26 eventos (feiras, fóruns e reuniões) e 20 materiais de divulgação (impressos, mídias sociais e sites).
A capacitação em trigo tropical contou com 64 técnicos treinados (mais de 24 horas de aulas práticas e teóricas, com visitas a campo e interação com produtores, cooperativas e moinhos) e 15 profissionais de comunicação. Foram registradas mais de 600 inserções do tema trigo tropical na imprensa.
“Não basta o investimento no desenvolvimento de cultivares, é preciso mostrar ao produtor como manejar a lavoura para explorar todo o potencial da genética que está disponível. A pesquisa avalia o melhor encaixe do trigo em cada sistema de produção, considerando correções de solo, adubação e risco de doenças, sem esquecer de observar fatores climáticos e mercadológicos”, explica o pesquisador Jorge Chagas, da Embrapa Trigo.
O desafio da brusone
A brusone continua sendo o maior desafio para expansão do trigo no ambiente tropical. Considerada uma das doenças de maior importância econômica no Brasil, a brusone é causada por um fungo que ataca folhas e espigas, com danos que podem comprometer até 100% do rendimento. O desenvolvimento da doença no campo é favorecido por altas temperaturas e umidade, condições que, muitas vezes, estão presentes no ambiente tropical.
Apesar dos avanços no controle químico, a resistência genética das cultivares de trigo ainda é a forma mais segura e econômica para conter a brusone. Durante a execução da TED Trigo Tropical, foram avaliadas 250 linhagens de trigo para tolerância à brusone. Em dois anos, foram 7.243 parcelas instaladas no campo e 50 isolados do fungo tiveram o DNA sequenciado com o objetivo de identificar genes e monitorar a resistência das plantas à doença.
Duas novas cultivares da Embrapa aguardam os trâmites legais para lançamento no mercado como alternativa ao controle da brusone. “As cultivares que entraram no mercado nos últimos anos, com a tecnologia chamada translocação 2NS/2AS, já reduziram muito as perdas por brusone, mas ainda não existe uma resistência total a doença. A pesquisa segue trabalhando na identificação de novas fontes de resistência para a brusone”, conta o pesquisador João Leodato Nunes Maciel, da Embrapa Trigo.
Apoio à governança
Umas das atividades em execução no projeto visa ao desenvolvimento de uma plataforma para apoio à tomada de decisão com critérios para caracterizar as regiões brasileiras em relação à dinâmica de produção de trigo no Brasil. Os estudos prospectivos apresentados na plataforma, com acesso público, relacionam dados sobre a produção (sementes, insumos, evolução histórica) e processamento (capacidade instalada, estocagem), além de importação e exportação.
Pesquisadores e analistas da Embrapa Trigo, da Embrapa Territorial, Embrapa Sede e Embrapa Solos estão trabalhando na análise estatística da dinâmica espaço-temporal da produção de trigo no período de 2002-2022. Entre os resultados diretos que poderão apoiar a tomada de decisão na expansão do trigo tropical está a localização da produção, identificação das áreas de cultivo de sequeiro e irrigado com a localização dos pivôs, média de produtividade por município e variações ao longo dos anos, número de empregos relacionados à cadeia do trigo, origem e destino da produção com informações de logística e industrialização, entre outros.
“Nossa expectativa é que a plataforma esteja disponível até o final de 2025, numa interface amigável para que qualquer pessoa possa acessar as informações sobre trigo no Brasil de forma fácil, rápida e gratuita”, explica o analista Álvaro Dossa, da Embrapa Trigo.
Jorge Lemainski, chefe-geral da Embrapa Trigo, reforça que o trigo, ao lado dos fertilizantes, é uma das principais pautas de importações do setor agrícola brasileiro. Em 10 anos, o Brasil gastou 14,7 bilhões de dólares com importação de trigo. “A expansão do trigo tropical representa a redução de gastos com as importações e a soberania alimentar com o trigo, além da geração de renda com a dinamização da economia no Brasil Central”, defende Lemainski.
Fonte: Embrapa