*Rubens Barbosa – presidente-executivo da Abitrigo

O mundo passa por fortes e profundas transformações. Surge uma Nova Economia, na qual o liberalismo (estabelecido a partir de 1945) está sendo gradualmente substituído por uma nova ordem econômica onde a eficiência na definição de políticas econômicas é substituída por objetivos de segurança, soberania e poder. O livre comércio está sob ataque com o esvaziamento do sistema baseado em regras estáveis e previsíveis.

 Negociações de acordos comerciais regionais (não bilaterais), realocação das cadeias produtivas e o crescente número de restrições comerciais por razões políticas e pela busca de autossuficiência são algumas das mudanças. Nesse contexto, a globalização passa por importantes ajustes com o reordenamento produtivo global, a realocação das cadeias produtivas, pelo aumento do custo transporte e pela atual desorganização do mercado agrícola e energético. Considerações sobre meio ambiente e mudança de clima passaram a ter impacto sobre as negociações comerciais.

O nacionalismo representado pelo fortalecimento das economias domésticas para conseguir uma autonomia soberana em áreas consideradas estratégicas e a definição de novas políticas industriais estão afetando diretamente o liberalismo e o livre comércio, gerando tensões entre os EUA e a Europa, com impactos globais. O populismo fortalece o intervencionismo protecionista.  Considerações de poder, com base na segurança nacional passaram a influir na aplicação de restrições comerciais como arma política, como as sanções e restrições aos chips e medidas tomadas pelo lado americano e chinês (nos minérios como o gálio, germânio, terras raras)

            Na ordem mundial, depois da bipolarização da Guerra Fria, com a queda do muro de Berlin em 1989 e o fim da União Soviética em 1991, surgiu uma nova ordem global. Emergiu um mundo unipolar com os EUA como a única superpotência e com a globalização financeira, econômica e comercial, gerando a expansão econômica liberal e o crescimento da economia global. Essa ordem mundial começou a mudar na primeira década do século XXI com a volta de China como potência e o início da disputa com os EUA pela hegemonia global.  A guerra da Rússia na Ucrânia, o fato mais relevante desde a queda do muro de Berlim em 1989, marca o início de uma nova era e, ao contrário da situação que prevaleceu nos últimos 20 anos, representa a prevalência da geopolítica, com ênfase na segurança nacional, sobre a economia e a globalização. A nova Estratégia Nacional de Segurança dos EUA, justifica políticas comercial, com o tarifaço global, e externa de Donald Trump que estão transformando as relações internacionais como estabelecidas a 80 anos.

Começa a delinear-se um novo cenário global com a consolidação de zonas de influência onde os interesses dos EUA, da China e da Rússia prevalecem. Nas Américas, o ressurgimento da Doutrina Monroe abriu espaço para a tutela de Washington sobre a Venezuela e ameaças a Cuba e México. Hoje, o Direito Internacional e as instituições globais, como a ONU e a OMC, estão enfraquecidas e considerações de ordem geopolítica impactam a política externa, de defesa e comercial de todos os países.

A ordem internacional que prevaleceu desde 1945 não voltará. Como os países vão reagir? As potencias médias são os que mais tem a perder. Nesse contexto, sem uma visão estratégica de médio e longo prazo, são crescentes os desafios para o Brasil – uma potência média regional – encontrar seu lugar no mundo.

*Rubens Barbosa é presidente-executivo da Abitrigo – Associação Brasileira da Indústria do Trigo, desde 2016. Diplomata de carreira, consultor de empresas e mestre em Política Internacional pela London School of Economics and Political Science, tendo ocupado diversos cargos no Governo brasileiro e no Ministério das Relações Exteriores. Foi Embaixador do Brasil em Londres, de janeiro de 1994 a junho de 1999, e em Washington, D.C., de junho de 1999 a março de 2004. Quando em Londres, ocupou por cinco anos o cargo de Presidente da Associação dos Países Produtores de Café (APPC). Atualmente é Diretor Presidente do Instituto Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE), consultor de negócios e ocupa, entre outros, os cargos de Presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, Presidente do Conselho Deliberativo da SOBEET (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica), além de integrar diversos outros Conselhos, como da empresa CSU CardSystem S.A e da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).